Data: 20/09/2010 - 08h57
Entre os milhares de tangos compostos em um século de história de ritmo no compasso "dois por quatro", existem ao menos cem que são considerados "os piores".
Na lista dos péssimos estão vários que ganharam popularidade na voz de grandes cantores como Carlos Gardel, conta o especialista argentino que teve a "difícil" tarefa de classificá-los.
O livro "Los 100 peores tangos", de Enrique Espina Rawson, que preside o Centro de Estudos Gardelianos (CEG), não só analisa as composições bizarras, espantosas, contraditórias, mas investe contra tangos reconhecidos como "Fumando Espero", "La Cumparsita", "Azúcar, pimienta y sal" e "Fea", entre outros de grande sucesso.
"Tangos ruins têm muitíssimos, o difícil foi classificar os cem piores", ressaltou o escritor à Agência Efe.
Rawson admite que o critério "foi simplesmente" o seu; disse que fez "sem intenção de ofender ninguém", mas está preparado para enfrentar previsíveis polêmicas.
A classificação, que reúne letras ridículas, inverossímeis e involuntariamente cômicas em uma mistura "onde a soma das partes excede o todo", inclui alguns poucos passos duplos e o ritmo da rancheira que foram adaptados ao tango.
Os compositores se apegaram a falsos estereótipos, os versos aludem a "ambientes rústicos, alheios à origem do tango e citam o "arrabal" (subúrbio), uma "região indefinida mais próxima ao cenário do que a geografia", adverte Espina.
Na opinião dele, o cúmulo é que os compositores levaram o tango para cenários exóticos como a Rússia, Japão e "o Oriente", quando no máximo que se poderia tolerar eram alusões a locais estrangeiros que os grandes cantores visitaram, como Paris.
Espina detalha que "Fumando Espero", de insuspeitado êxito nos anos 20 e popularizado por Sarita Montiel, é um tango espanhol cuja protagonista poderia ser "acusada de apologia às drogas", já que foi comprovado que fumar não é genial, tampouco sensual.
"Quando a letra diz 'mi egipcio es especial/qué olor señor' (meu egípcio é especial/que cheiro o senhor, em livre tradução) acreditávamos que fosse uma referência a um senhor nascido no Cairo, mas agora vemos que foi a um cigarro fabricado naquela região", opina sobre este tango com letra de Félix Garzo e J. Viladomat e música de Juan Masanas.
Diz que a letra do tango "Fea" (Alfredo Navarrine), que Gardel gravou duas vezes com a orquestra de Osvaldo Fresedo, "não está ruim", mas é "inverossímil e risível o excesso de dramaticidade" que faz com que a "infeliz" protagonista "se suicide na última estrofe".
A letra de "La Cumparsita", fruto "da febril inspiração" do uruguaio Gerardo Mattos Rodríguez, também autor da música, é um "susto" que relata a infâmia de quem abandonou a sua mãe, que morre "de frio, nada menos", garante.
O analista lamenta que Rodríguez "desautorizasse a letra" escrita por Pascual Contursi e Enrique Maroni, que era "algo mais digno, sem ser uma maravilha", além de "ser a que popularizou a obra".
O autor do livro critica ainda o tango "Azúcar, pimienta y sal", no qual as três palavras são repetidas a exaustão, o que deveria estar proibido. Ele lembra que este tango foi "uma peça de batalha" da orquestra de Héctor Varela, um dos criadores do tema junto a Abel Aznar e Ernesto Rossi.
Espina perde a paciência com "Gitana rusa" (Juan Sánchez Gorio e Horacio Sanguinetti) porque não se sabe a partir de onde "o relator espreita sigilosamente as viagens da cigana e não avisa em que para simplesmente de procurá-la".
Mas o cúmulo talvez seja "Petruschka", que Agustín Magaldi cantou com entusiasmo e cuja letra "é tão inconcebível como escrever cumbias (dança popular da Colômbia e Panamá) ambientadas em São Petersburgo", ressalta.
A composição de "Retta y Dumont", com música de Francisco Pracánico, alude aos encantamentos de uma mulher quando o título da obra "pode traduzir-se como Pedrito, o que dá um inesperado viés gay a composição", especifica.
"Abuelito", que cantaram Gardel e o uruguaio Julio Sosa, afirma Espina, leva ao questionamento "como é possível" que o idoso, "apesar de sua notória tendência ao tinto (vinho)", tenha "tanta falta de sensibilidade" em contar ao neto "uma história tão patética que, para o cúmulo, é a história de sua mulher".
Espina agradece e faz seu o verso de Enrique Maroni: "Tango que me hiciste mal, y sin embargo te quiero".