Morgan Freeman, de 72 anos, é um dos mais admirados atores americanos das últimas décadas – e um dos primeiros negros a usufruir de prestígio e sucesso entre todas as parcelas do público, sem distinção de cor. Assim, embora rejeite peremptoriamente o papel de liderança política ou racial, Freeman pouco a pouco se envolveu de maneira discreta, mas decidida, com as transformações no continente africano.
Como o senhor compara a África do Sul que conheceu nos anos 90 ao país de hoje, em que filmou Invictus?
Visitei a África do Sul diversas vezes e estava lá no aniversário de 80 anos de Nelson Mandela, em 1998. Havia uma excitação, uma energia tão grande no ar que achei que o país iria explodir em produtividade e em mudança. Mas essa explosão não aconteceu. Thabo Mbeki (que sucedeu a Mandela na Presidência) não soube aproveitar essa vantagem. Era um homem bom e preparado, mas não era estadista o bastante. Tendo em mente não apenas os sul-africanos, mas toda a África, já que o continente está atrelado de várias maneiras ao que se passa no país, torço para que Jacob Zuma, o atual presidente, saiba tirar partido desse dinamismo que ainda existe lá.
E quanto às relações entre negros e africâneres, como o senhor as percebeu hoje?
Numa simples visita à África do Sul, a impressão é que as relações raciais são tomadas muito às claras. Os próprios sul-africanos me relatam uma outra história, de que ainda existem diferenças e rancores intransponíveis. Creio que o crucial é que o fator econômico tinge fortemente as relações entre brancos e negros. Desde o fim do apartheid, as desigualdades foram postas completamente a nu – e o déficit de educação, emprego e moradia entre os negros era, e é ainda, tão acentuado que mesmo que tudo houvesse caminhado de maneira ideal seria impossível ter tornado as oportunidades compatíveis em um espaço tão breve de tempo. Quinze anos não bastam. Serão necessárias pelo menos três gerações para que mudanças apreciáveis nas relações raciais se enraízem.
Mandela lhe disse por que o considerava o ator ideal para interpretá-lo?
Porque sou bom, ora.
Algo mais específico?
Brincadeiras à parte, não creio que seja melhor do que tantos outros atores negros que poderiam ter feito o papel. Mas talvez me pareça mais com Mandela, fisicamente, do que a maioria.
Como o senhor avalia sua atuação?
É um desafio interpretar alguém que todos conhecem. A dúvida é: serei eu capaz? Ou terminarei constrangendo a mim e a todos os demais envolvidos? Ainda não assisti a Invictus, porque sei que quando o fizer vou julgar que falhei na tarefa. Prefiro então ouvir dos outros que me saí bem.
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